Experimentalismos em Recife
A Semana de Artes Visuais do Recife (SPA) tem um caráter híbrido e mutante. Híbrido por considerar as artes visuais em toda sua amplitude de meios e suportes e como uma “linguagem” que cada vez mais faz intercessão com a música, o vídeo, a dança, etc., bem como com o cotidiano dos moradores da cidade. Mutante por não preconceber um desenho único, permitindo-se, a cada edição, novidades em seu formato, absorvendo as próprias necessidades do meio artístico. Há cinco anos o SPA foi concebido por um grupo de artistas e logo alojado numa prefeitura que, apesar da rigidez inerente a qualquer máquina pública, é sensível ao diálogo com a comunidade artística e ao mesmo tempo preocupada com a descentralização das ações culturais. Sob essas concepções, surge um evento que se espalha pela cidade e vai ao encontro do público.
Realizado ainda com um orçamento enxuto para um evento de tal porte, o SPA tem uma produção complexa – dadas suas especificidades – e exige uma dedicação extra de toda a equipe, do projeto à realização. Com um enfoque que vem privilegiando a formação de artistas e de público (com palestras, debates, grupos de crítica, lançamento de publicações e inúmeras oficinas) e abrindo espaço para novas criações e circulação de produções (através do Mapa das Artes, das Semanadas SPA – incentivo financeiro por meio de edital público – e democratização de espaços expositivos), o SPA vem contribuindo bastante – ao lado de outras iniciativas – para o enriquecimento das artes visuais produzidas em Pernambuco na última década. A vinda de dezenas de críticos, curadores, artistas e arte-educadores de outros estados e países promove uma abertura que se reflete em uma troca de informações substancial que vem adensando não apenas o fazer artístico, como também o discurso crítico e a pesquisa em arte. É notável que Recife conte hoje com um número grande de jovens artistas pesquisando novos meios e linguagens, assim como com aspirantes a críticos e curadores.
Distinguindo-se do formato predominante de Salões e grande premiações pontuais, o SPA estimula que os artistas não apenas busquem os tradicionais espaços expositivos (museus e galerias) mas também promovam o encontro das obras com os transeuntes, seja nas ruas do subúrbio ao centro, seja em espaços alternativos como prédios em desuso. Apesar de continuar sendo uma ação eventual que acontece uma vez por ano, o SPA concentra um grande número de atividades e acaba contribuindo fortemente para o amadurecimento da arte atual bem como para a visibilidade de uma produção que se amplia a cada ano. Ou seja, as ações propostas para serem realizadas durante a semana são planejadas pelos artistas e demais profissionais das artes com alguma antecedência – por ser um uma iniciativa já esperada no calendário cultural da cidade – e acabam por perdurar ou ganhar desdobramentos em outros lugares. 1
Contudo, admitindo-se um perfil mais experimental, naturalmente também se aposta alto na possibilidade de erros. Investir sobretudo numa produção de artistas em formação que experimentam novas maneiras de propor seus trabalhos é também testar os limites da arte, chegar às polaridades, do bom e do ruim. Conceder os mesmos espaços para artistas selecionados por uma comissão julgadora especializada (Semanadas SPA) e para artistas não selecionados ou que não submeteram projetos, é assumir, junto com esses produtores, os riscos em relação ao que o público verá. De qualquer maneira, esse ecletismo vem provocando um embate saudável de pontos de vista tendendo a uma quebra de barreiras entre artistas mais formais e outros mais radicais em suas práticas e discursos, entre o público acostumado com vernissages e aquele que frui sobre o inusitado com que se depara nas ruas e lhe faz parar.
Encontrar um ponto de equilíbrio entre o suposto distanciamento do público em relação a espaços expositivos institucionalizados e as intervenções urbanas; entre a dita “arte contemporânea” e a cara “tradição pictórica pernambucana” (ambas cercadas por seus estereótipos); entre o experimentalismo da jovem produção a interlocução com a experiência dos veteranos; não é tarefa fácil.
Contudo, o desafio de encontrar respostas – ainda que momentâneas – para os questionamentos que sempre são feitos acerca da produção e da difusão da arte é uma tarefa muito comum ao dia-a-dia dos artistas, principalmente dos que ainda iniciam uma pesquisa, como é o caso da maior parte dos profissionais (entre artistas, produtores e gestores) que coordenam o SPA. Talvez até mesmo pelo fato de ser, cada vez mais, um evento organizado e vivenciado por jovens artistas, é que a Semana de Artes Visuais do Recife tem tido silhuetas tão englobantes.
Além de ter seu formato discutido ano a ano por aqueles que dele participam ativamente – numa reunião prévia à organização do evento onde se pensa, coletivamente, o formato da edição seguinte (mantendo o que parece ter dado certo e transformando equívocos em mudanças e, inclusive, incorporando novidades) –, o SPA é bastante convidativo à agregação de novas experiências, funcionando como um grande e saudável laboratório para a cadeia produtiva das artes visuais, propiciando o amadurecimento do evento e, em especial, a maturação da trajetória daqueles que dele participam.
Rodrigo Braga
Artista plástico e Coordenador da Semana de Artes Visuais do Recife
LEGENDA DA FOTO: Experimentos Gramíneos 1 de Maicyra Leão (DF), SPA 2006.