Arquivo para por Bia Medeiros

Arte contemporânea no Brasil de hoje – por Bia Medeiros

Arte contemporânea no Brasil de hoje.

 

Maria Beatriz de Medeiros[1]

 

Nesse paper serão apresentadas possibilidades de relação da arte contemporânea com as diferentes instituições de fomento à pesquisa, secretarias de cultura, Ministério da Cultura, assim como a visibilidade de ações independentes.

 

A produção do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos será apresentada em suas diferentes vertentes: exposições em galerias, espaços institucionais, intervenções urbanas e trabalho na rede mundial de computadores. Verificam-se nesse percurso certas facilidades, dadas pelo fato dessa pesquisa realizar-se no âmbito acadêmico e ser liderada por Professor Doutor, e certas dificuldades por ser um trabalho de performance, de intervenção urbana, um trabalho artístico que se quer junto ao publico, que deseja a participação do publico, principalmente do grande publico. A atuação desse Grupo com Performances em telepresença também sera discutida: que visibilidade para um trabalho virtual?

 

Outros trabalhos artísticos serão apresentados. Por exemplo, a iniciativa de Maria Lucia Cattani (RS) denominada “APIC!” (Artistas Patrocinando Instituições Culturais!), marca disponibilizada pela Internet e utilizada por diferentes artistas no Brasil; o Canal Contemporâneo idealizado por Patrícia Canetti, entre outros.

 

Palavras-chave: Corpos Informáticos, ANPAP, Universidade, Fomento, virtualidade.

 

 

***

 

 

O Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos, por mim coordenado, formou-se na Universidade de Brasília em 1992, com alunos de Artes Cênicas, Artes Visuais e técnicos. Sendo Doutora, rapidamente me foi possível conseguir algumas bolsas, primeiramente bolsas de extensão junto ao Decanato de Extensão da Unb e posteriormente, junto ao CNPq, bolsas de Iniciação Cientifica, Apoio Técnico e bolsas de aperfeiçoamento. Esse apoio permitiu, e permite até hoje, a coesão do grupo, a continuidade do trabalho. Constituindo-se grupo de pesquisa reconhecido pelo CNPq e pela Unb conseguimos também apoio no sentido de adquirirmos certos equipamentos. Inicialmente ilha de edição de vídeo, câmeras, posteriormente computadores. Esse apoio é indispensável ao desenvolvimento da pesquisa em Arte, e em todas as áreas de conhecimento, no Brasil. Esse apoio para a área de Arte é recente e cabe lembrar a importância da ANPAP (Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas) para o reconhecimento dessa área de conhecimento junto aos órgãos de fomento à pesquisa no Brasil (CNPq, CAPES, Fundações de apoio à pesquisa,…). A ANPAP foi fundada em 1987, e o reconhecimento da área de Artes como área de pesquisa, por esses órgãos, foi posterior.

 

O fato do GPCI ser liderado por um Doutor pode abrir essas portas para esse grupo. Em 1992, quando começamos, poucos eram os Doutores em Arte no Brasil. Hoje, pululam Doutorados em Arte e um grande número de Doutores se forma. O numero de bolsas e de apoios para a área de artes não vem acompanhando esse ritmo o que gera uma defasagem na relação numero de bolsas de produtividade em pesquisa/doutores em Arte no Brasil. Algum esforço vem sendo feito no sentido de aumentar o numero de bolsas e apoios, mas esse é insuficiente gerando inclusive mal-estar entre os Doutores.

 

A situação é paradoxal: o apoio do CNPq, através da concessão de bolsas IC, multiplica o número de pesquisadores interessados em cursar Doutorado, por outro lado, uma vez formados esses Doutores, não há bolsas de PQ para todos e não se abrem vagas nas Universidades para a absorção desses Doutores.

 

Mas há que se reconhecer a importância do apoio. O GPCI formou vinte e quatro bolsistas IC, dentre eles, hoje, um Doutor pela UFBA (Cleomar Rocha, ex-presidente da ANPAP), uma Mestre pela UNICAMP (Rita Gusmão, hoje, Diretora do Centro de Cultura da UFMG), uma doutoranda pela UFBA (Alice Stefânia, professora substituta na UnB), uma especialista em Multimeios (Carla Rocha, membro do GPCI), diversas mestrandas, etc.

 

*   *   *

 

O GPCI, com a aquisição de equipamentos e outros financiamentos, pode participar de diversos congressos no exterior e inúmeras exposições em locais institucionais. No entanto, realizando performances, instalações e intervenções urbanas, o Corpos Informáticos se interessa em um trabalho junto ao publico, que deseja a participação do publico, principalmente do grande publico. Essa vertente da pesquisa é muito pouco reconhecida pelas instituições. Muitos salões, por exemplo, exigem trabalhos apenas in situ. Não lhes interessa dar um prêmio para uma obra que não possam adquirir e que consequentemente venham compor seus acervos.

Em 2005/2006, o GPCI liderou diversas intervenções urbanas realizadas por artistas da cidade (Daniela Bezerra, Leopoldo Wolf, Cirilo Quartim, grupo Zapatista, Movimento Passe Livre, Punks…) e pelo próprio GPCI: A.CON.TE.CIMENTO (http://corpos.blogspot.com). Para tal inicialmente não recebu nenhum apoio. Mas, ao fim do terceiro A.CON.TE.CIMENTO, a Casa Brasil-Espanha passou a ter interesse em projetar seu nome junto ao evento tendo dado, inclusive, apoio financieiro.

 

Algumas instituições, hoje, já financiam transporte, seguro, translado do artista, fotografias e publicações e divulgação da exposição, coisas essenciais a uma exposição e que muitas vezes os artistas bancam com seus próprios meios. Mas, esses itens financiados, fica a questão: quanto vale o trabalho do artista? Nada. Esse é o caso, por exemplo, das bienais brasileiras. Tudo é pago para a construção, montagem da obra, translado, etc. Mas, quanto recebe o artista por sua criação? Nada.

 

O artista concebe a obra, cria (por iluminação divina?). É necessário percurso, experimentações, analise da realidade, leitura, viagens de pesquisa… Sua criação não vale nada. Trata-se financiar instituições culturais!

 

Uma excelente iniciativa, que pensa e faz pensar essas questões, é o ‘APIC!’. Trata-se de um logotipo disponizado pela internet no endereço www.artewebbrasil.com.br/apic/apic.htm

A iniciativa ‘Artistas Patrocinando Instituições Culturais’, foi concebida por Maria Lucia Cattani e Nick Rands, em 2001, em Porto Alegre. O logotipo foi disponibilizado e proposto a todo artista que não recebendo apoio ‘fornece um serviço publico gratuito’ e ‘arca com os custos para apoiar uma instituição publica’. Esses artistas, no texto divulgado na pagina citada, referem-se à Inglaterra, que depois de muitas campanhas estabeleceu uma espécie de contrato padrão entre artistas e galerias, garantindo ao primeiro transporte do trabalho, seguro, fotografias, publicações pagos pela galeria e, além disso, um ‘pagamento’ no valor de aproximadamente R$ 1500,00 (em 2001).

 

Seria necessário os artistas não mais aceitarem participar de exposições sem receber alguma remuneração. Se todos o fizessem, as galerias seriam obrigadas a prever essa verba, assim como está previsto orçamento para tinta para repintar a galeria, verba para lâmpadas, funcionários, etc. No entanto, reconheço a necessidade de jovens artistas mostrarem seu trabalho e a necessidade de o fazerem “a qualquer custo”, digo com ônus próprio, isto com custo.

 

Muitas vezes espaços, por exemplo, universidades, escolas, secretarias municipais ou estaduais de cultura, realizam exposições e afirmam aos artistas que essa será uma oportunidade de mostrarem seus trabalhos, que o evento será divulgado na imprensa… Efetivamente, a imprensa divulga esses eventos com textos do tipo: “Universidade ‘tal’ promove evento artístico”, ou “Secretaria de Cultura promove…”. Isso nada mais é do que uma propaganda para a entidade, e não para os artistas.

 

*   *   *

 

Um outro aspecto que cabe aqui levantar é aquele da virtualidade. O GPCI vem trabalhando com performance em telepresença desde 1999. Uma das propostas desse grupo é fazer uso da especificidade de cada técnica utilizada, buscando o outro da positividade de cada técnica, isto é, o objetivo buscado pelas empresas produtoras dessas técnicas: objetivos muitas vezes puramente capitalistas e homogeneizados. Buscar a especificidade técnica é buscar sua linguagem específica, aquela capaz de gerar afecto e percepto. Com esse pensamento, ao começarmos a trabalhar com a telepresença, nos dissemos que seria necessário permanecer apenas on line, já essa é característica primeira dessa linguagem. E assim fizemos durante dois anos. Nossas performances em telepresença eram apenas anunciadas on line. Internautas de todo mundo podem participar de nossa proposta já que ela se utiliza de um software de download free. De fato, assim fazendo nos conectamos com diversos pesquisadores da área e conhecemos muitas pessoas mundo a fora. No entanto, o mercado de arte, a imprensa local ou nacional, os artistas, os artistas trabalhando arte e tecnologia não reconheciam o trabalho. Enfim, desaparecemos.

 

Foi necessário retornar às galerias, realizar performances em telepresença a partir de um ponto fixo –uma galeria, uma instituição, um salão- para reaparecer no mercado, para ter nosso nome de novo na imprensa, para que nossos pares e o público pudessem nos ver.

 

A Internet representa novos meios de comunicação e de difusão da arte, no entanto o meio artístico não nos parece ainda preparado para essa nova mídia.

 

Desse ponto de vista e no que diz respeito à virtualidade é preciso ressaltar a importância do trabalho de informação sobre arte que vem sendo realizado pelo Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.com.br), idealizado e realizado por Patrícia Canetti. Assim como o Corpos Informáticos, Patrícia Canetti afirma querer criar uma comunidade, um “sujeito coletivo”, um “coletivo vivo”. O Corpos se quer um coletivo vivo e aberto à participação do público, do grande público.

 

Em um recente texto, Canetti afirma “Os artistas investem seus recursos para promover a programação de instituições culturais”. Trata-se exatamente do mesmo ponto levantado por Cattani e Rands.

 

Depois de se constituir em uma atitude autônoma e auto-gerida, o Canal contemporâneo recebeu o apoio, já renovado, da Petrobrás, assim como o Prêmio Sérgio Mota. Essa iniciativa divulga exposições, salões, publica textos e portfólios de artistas, denuncia “prêmios”, critica iniciativas prejudiciais aos artistas, atitudes incertas do Ministério da Cultura, etc. Canetti afirma ser necessário “educar o patrocinador”.

 

*   *   *

 

Muita coisa ainda está por ser feita. Muitas atitudes de instituições e galerias devem ser denunciadas. Lembramos o Brazilianart 2006 que solicitou a cada artsita a doação de uma obra de arte e em contra-partida ofereceu a participação em uma esposição em SP, a publicação do trabalho em um grande livro (cabe dizer que ficou lindo), e 5 exemplares de cada livro. Realizou a exposição, muita mal instalada, publicou o livro e enviou a cada artistas 5 exemplares do livro, mas recebeu R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) do Ministério da Cultura (MINC) e queria vender o restante dos livros por R$ 250,00, cada. Com a divulgação desse ‘pequeno’ escandalo, a organização resolveu ‘doar’ aos artistas os livros: cerca de 300 livros para cada artista. Calculando que cada livro pesava 3,5 quilos, cada artista recebeu mais de 1 tonelada de livros! E as obras, aonde estão? Serão doadas?

 

É preciso denunciar. Denunciar as atitudes do MINC, o malefício da Lei Rouanet, que dá às empresas a responsabilidade de gerir a cultura do país. A verba da lei Rouanet é dinherio público brasileiro. Que dizer do MINC financiar o Cirque du Soleil? Esse grupo tem financiamento do governo francês! Os ingressos de seus espetáculos custaram cerca de duzentos Reais! O MINC deu ao Cirque du Soleil dois milhões! Será que poderíamos dizer que a FUNARTE em seu projeto Rede de Artes Visuais vem trabalhando de forma a atender as necessidades da arte no Brasil? Basta? Que política tem o governo Lula para as Artes Visuais?  A resposta é simples: nenhuma. As Câmaras setoriais, suas decisões e colocações, serão respeitadas?

 

Sim, faz-se necessário educar o patrocinador, mas também o artista, o marchand, o galerista, o curador e o crítico, que desconhecem seus direitos e deveres, que não percebem o quanto o artista, o curador e o crítico de arte vêm sendo depreciados, utilizados, manipulados no Brasil.

 

É preciso que o Brasil comece também a ter memória: que se publiquem catálogos, livros, que se escreva a história da Arte no Brasil. Para tal é preciso investimento.

 

Sim, muitos passos ainda devem ser dados para uma melhor compreensão das relações da Arte, do artista, do curador e do crítico com as instituições culturais, com o Estado, com os estados e suas Secretarias de Cultura, com as universidades, as Instituições de Fomento à pesquisa e as Fundações de Apoio à pesquisa. Quero, aqui, parabenizar a iniciativa desse congresso que visa discutir questão tão complexa e talvez nos mostre fendas onde atuar politicamente para tornar essas relações mais claras, mais transparentes, enfim, mais justas para a classe artística.

 


[1] Professora Adjunto IV na Universidade de Brasília, representante adjunta para a área de Artes na CAPES, pesquisadora do CNPq, Líder do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos (www.corpos.org).

 

 

Deixe um comentário »