Outros Tempos, outras Greves
Breve comentário sobre greve e autogestão na Argentina
Marco Fernandes
Graças à consagração da teologia neoliberal nos anos 90, a Argentina viveu a maior catástrofe social de sua história. Depois de ser vendida, no começo da década, como exemplo de Estado bem sucedido em nova dinâmica de acumulação capitalista, o país teve de acordar para a triste realidade das sociedades periféricas: com a crise em dezembro de 2000, evaporou-se mais de 20% do PIB nacional em menos de 4 anos (um dado que se refere normalmente a países em guerra), taxas de desemprego de 25 % e mais da metade de seus 37 milhões de habitantes lançados abaixo da linha de pobreza.
Os trabalhadores argentinos, assolados pela desestruturação do mundo do trabalho, (a precariedade das relações trabalhistas e perda contínua de garantias de emprego), viram o tradicional poder de contestação de seus sindicatos reduzir-se ao mínimo. Esse conjunto de fatos como a precariedade, pobreza e falta de instrumentos políticos para conter a ofensiva neoliberal obrigou os trabalhadores a criarem novas formas de luta e de organização: ocupações de fábricas e principalmente a novidade histórica representada pelos “movimentos de desempregados”, os chamados “piqueteros”. Enfraquecidas pela conjuntura política do mundo do trabalho, as “greves tradicionais” deram lugar às “novas formas de greve”.
No caso das fábricas falidas ou recém-abandonadas por proprietários que já não pagavam há meses os salários integrais dos trabalhadores- enquanto drenavam recursos para aplicações financeiras, de preferência, em paraísos fiscais- a única solução encontrada foi tomar o espaço da fábrica e suas máquinas, resistir às tentativas de despejo e lutar na justiça pela desapropriação da planta como contrapartida às dívidas trabalhistas (em geral, um processo lento e muito conflituoso), fugindo do fantasma do desemprego e tornando possível dar um passo além em suas reivindicações, ao implementar um regime de autogestão na produção.
Fim das hierarquias, assembléias para decidir o quê, como e para quem produzir, igualdade salarial entre todos os trabalhadores (faxineiros, operários e coordenadores) , e afrouxamento da rígida divisão do trabalho, o que tornou possível que aprendessem novos ofícios e mudassem de função na fábrica. Desmistificou-se a suposta necessidade de chefes e patrões para gerir a produção, o que não era nem um pouco claro para a maioria dos trabalhadores, que jamais imaginou ser possível tocar a produção sem seus “superiores”. “Se podemos controlar uma fábrica enorme, com computadores e tudo o mais, por que não podemos controlar todo o país?”, ouvi de um operário ceramista da Zanon, o qual aprendeu com uma das mais bem sucedidas experiências de autogestão na Argentina.
Os desempregados, impossibilitados por motivos óbvios de fazer greve com intenção de parar a “produção de mercadorias”, decidiram se organizar travando juntos a “circulação de mercadorias”. Sem “circulação”, não há venda. Sem venda, não há lucro. Massivos piquetes (daí o apelido de “piqueteros”), com adesão de dezenas de milhares de desempregados – principalmente a partir de 2000 -, passaram a bloquear a saída de caminhões nas fábricas, bem como o fluxo das estradas, avenidas e ruas de Buenos Aires e outras grandes cidades do país, causando grandes prejuízos ao setor industrial e ao comércio. Foi a única forma de pressionar o governo a atender sua principal reivindicação: o pagamento de “planes” (renda mínima) – de 150 pesos, menos de 70 Euros – aos “sem trabalho”.
O segundo passo dos movimentos foi organizar “fundos comuns”, e para estes as milhares de famílias que recebem “planes” contribuem mensalmente com 10 ou 15 pesos. A partir destes recursos, e com decisões tomadas nas assembléias, começaram a se organizar nos bairros da periferia algumas iniciativas ligadas, sobretudo, à alimentação. Visaram baixar o custo de vida das famílias envolvidas: o “comedor” (cozinha comunitária), onde uma família faz uma ou duas refeições por dia sem pagar nada; padarias e hortas comunitárias que produzem, quase a “preço de custo”, pães e verduras, e cujos lucros das vendas retornam ao “comedor”. Existem hoje milhares de iniciativas como essa nos bairros das metrópoles argentinas. Alguns movimentos mais organizados já construíram poços artesianos, possuem pequenas confecções, creches, postos de saúde para primeiros-socorros e, até mesmo, cervejaria artesanal, além de organizarem grupos de “formação política”, para discutir os principais temas da política nacional e ouvir histórias da luta de classes.
A combinação entre mobilização nas ruas da cidade e o “trabalho comunitário” na periferia vem ajudando a forjar um tipo de “identidade piquetera”****, contraponto da humilhação causada pela pobreza sem dignidade de um desempregado isolado, deprimido e culpado, que foi convencido pela cantilena neoliberal, a qual insiste em repetir que a culpa do desemprego é do desempregado: porque não tem qualificação, por ser preguiçoso, jovem demais, ou velho demais…(não foram poucos os depoimentos que ouvi de pessoas saídas de graves depressões, após se juntarem aos movimentos, porque “recuperou a dignidade”, “voltou a se sentir útil”, “porque agora não trabalho mais pra um patrão, mas pra minha comunidade”).
Apesar disso, a ligeira recuperação da economia da Argentina, que na verdade só fez recuperar as perdas da crise, pois o PIB de hoje é o mesmo de 1998, bem como algumas medidas populares do governo Kirchner (como a moratória de mais de 80% da dívida externa, e a punição de alguns militares da época da ditadura) enfraqueceram a oposição dos movimentos, já então fragmentados. A dificuldade em manter a unidade de ação e reivindicação entre as organizações “piqueteras” contribui para o enfraquecimento de sua força de oposição. Desde que Kirchner assumiu, quase a metade delas aderiu ao governo e diminuiu seus ímpetos de protesto e reivindicações. Neste exato momento, o governo acena com a possibilidade de reduzir pela metade os 1,4 milhões de “planes” que paga mensalmente. Por sua vez, as fábricas ocupadas, que reúnem em torno de 10 mil trabalhadores em mais de 300 unidades produtivas, ainda não foram capazes de forjar um instrumento político de esquerda que pudesse influir na política nacional. Como se vê, o que foi criado até agora não basta para conter o vendaval neoliberal.
Mas devemos considerar que a experiência dos “piqueteros” como a das fábricas, apesar de politicamente ricas, não completaram ainda uma década. São, portanto, embrionárias, e provavelmente não esgotaram seus frutos. Elas talvez nos dêem alguns indícios de que é não só possível, mas necessário, começar a construir o socialismo “antes da revolução” e da “da tomada do palácio de inverno”. Tais experiências demonstram que é praticável criar alternativas de organização do trabalho, produção e distribuição de bens, aqui e agora, sem perder de vista o horizonte de transformação radical. Pelo contrário, tornando-o cada vez mais concreto na sua árdua construção diária.
A “greve tradicional” sempre foi a melhor maneira de garantir o poder de veto da classe trabalhadora contra os nunca satisfeitos interesses dos capitalistas, mas ela não estimula a auto-organização. Após seu término, os trabalhadores retornam ao “ritmo normal de trabalho”, submetidos às imposições da divisão do trabalho e do imperativo do lucro capitalista. Numa fábrica ocupada e num bairro da periferia de BsAs, os trabalhadores têm a chance de organizar coletivamente a produção, o tempo e o espaço onde transcorrem suas vidas, de maneira autônoma, sem precisar da ordem de chefes ou funcionários do governo. Nessa passagem “da greve à autogestão” reside a chance de “mudar o cotidiano” e a “sociabilidade” dos trabalhadores, tornando possível uma alteração nas condições de subjetividade dos protagonistas de uma “outra história”, a história que está para ser escrita. História de uma sociedade sem propriedade privada dos meios de produção, sem exploração e sem patrões.
Marco Fernandes
é militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), garçon profissional, formado em História. Durante dois meses, em duas viagens distintas, conversou com militantes de várias organizações “piqueteras”, bem como com diversos trabalhadores de fábricas ocupadas)
Tradução: Joahanna Hoerning