As questões postas hoje em discussão para a produção estética se relacionam estreitamente com suas formas de financiamento e suas decorrências e imbricações a respeito do lugar e dos vínculos entre essa produção e a tessitura sócio-política contemporânea. A base empírica dessa reflexão se ancora nos coletivos de teatro, que se articularam como um movimento (ainda que se recusem a qualquer forma institucional) auto denominado Arte contra a Barbárie. Graças às suas demandas e provocações, provenientes de sua ação em São Paulo em torno da necessidade e urgência do fomento público e de critérios públicos de julgamento e escolha dos grupos a serem contemplados com as verbas daí resultantes, isto é, de suas propostas que caminharam para um conjunto de embates em torno de uma política pública de cultura (e não de programas sociais pontuais e focalizados) voltada para a produção teatral, alguns eixos de reflexão acabaram por se delinear, na procura de alternativas ao que F. Jameson chamou veementemente de A Cultura do Dinheiro.
A discussão em torno do fomento público se coloca na perspectiva de se contrapor às formas de arbitragem privada no financiamento da produção cultural, o que por sua vez, remete aos usos contemporâneos da cultura espetacularizada, midiatizada e vinculada aos processos mundiais de financeirização. O descolamento desse tipo de produção teatral das formas de patrocínio pelo capital mobilizado pelas empresas privadas ou públicas tem como desdobramento um conjunto de questões: autonomia/ heteronomia da produção cultural, a constituição de públicos e sua dissociação dos limites superiores da pirâmide social, as perguntas relativas a esses públicos em constituição (arte para quem?), o diálogo entre arte, cidade e intervenção na cidade (que significa intervir na cidade? Quais tensões, contradições e conflitos são mobilizados por este ato?)
O contraponto da lógica do patrocínio – que, diga-se de passagem, é arbitrada privadamente ainda que utilize fundos e recursos públicos- é a lei de fomento, duramente conquistada pelo Arte contra a Barbárie e constantemente ameaçada de desmonte, o que é outra fronteira de conflitos em meio a tantas formas de ameaça ao próprio sentido da produção de arte, à sua assimilação pura e simples pela lógica voraz da mercantilização a qual, como sabemos, transforma a qualidade em quantidade. Resta saber a que, para além do combate, é possível identificar hoje como núcleo que poderia distinguir (se é que ainda é possível) um modo próprio do fazer arte, para além do consumo, da distinção, da captura no nascedouro desse fazer pela lógica do espetáculo, bem como suas questões, a possibilidade de constituição de novos públicos, a possibilidade desse fazer em meio à pasteurização, por um lado, e estrita elitização, por outro; daquilo que já pôde ser identificado como partilha do sensível, como desacordo sobre o mundo, como criação de uma lógica que embaralha hierarquias mais do que as ratifica.
Cibele Risec é socióloga, professora da USP de São Carlos, acompanha e assessora os grupos que se mobilizam pela Arte Contra a Barbárie.